#Lésbica #Traições

Do leve ao bem pesado - Parte 1

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Puuuta 341

A cidade parecia prender o ar quando eu fechei a porta. Não foi o trinco que me assustou—foi o silêncio que veio depois, um silêncio cheio de coisas não ditas, como se o apartamento já soubesse o que ia acontecer antes mesmo de eu entrar.

Eu senti ele antes de ver direito, porque havia uma presença que não cabe no corredor. Ele estava ali, encostado na parede, perto demais para ser acaso. A distância entre o que eu queria e o que eu temia era mínima—e ele sabia disso.

Quando tirei o casaco, o tecido deslizou devagar pelos meus ombros, e eu odiei perceber como a minha coragem falava mais alto do que eu. Eu tentei sustentar um sorriso, mas era um sorriso feito de desafio. Não de alívio.

— Você demorou — eu disse, e a minha voz saiu baixa, firme demais para ser só impaciência.

Ele não desviou o olhar. Pelo contrário: o olhar dele ficou mais direto, mais quente, como se estivesse tentando atravessar a pele sem precisar tocar. Eu fiquei em pé, imóvel, esperando o momento em que ele decidiria se vinha de verdade ou se ia recuar como sempre fazem os covardes.

— Eu não sabia se vinha… ou se voltava para ser só lembrança — eu completei.

Ele se afastou da parede como quem abandona uma desculpa. Um passo, depois outro. O quarto começou a ficar pequeno demais para a distância que ainda fingíamos existir.

Quando eu percebi que ele estava a um palmo de mim, minha respiração mudou. Ficou curta. Atenta. Como se o meu corpo, traidor, já tivesse respondido antes da minha mente.

— Lembrança não aguenta a sua ausência — ele disse. — Quem te ama não consegue fingir que é pouco.

Eu virei o rosto um pouco, só o suficiente para tentar recuperar o controle. Mas não funcionou. Ele segurou o meu queixo com delicadeza—delicadeza que não pedia permissão, só confirmava intenção. Me obrigou a olhar de volta. E eu olhei.

Por um instante, eu quis recuar. Não por falta de desejo—por medo do depois. Medo de entender que não dá para voltar ao “como era”, depois que a gente admite o que sente.

— Então prova — eu sussurrei, e a minha voz saiu como se estivesse quebrando por dentro.

Ele encostou a testa na minha. Tão perto que qualquer palavra viraria ar. O tempo esticou, e as luzes de fora, os carros, as vozes da rua… tudo ficou longe, insignificante. Ali só existiam duas respirações se encontrando e um desejo que começava a derrubar as últimas defesas.

Quando ele me beijou, não foi só beijo. Foi uma confissão passando pela boca. Eu senti meu corpo responder sem pedir desculpas. As mãos minhas tocaram ele como quem procura algo para segurar enquanto o chão começa a ceder. Eu não gemi alto—eu só deixei escapar um som baixo, de rendição difícil, como se eu estivesse admitindo uma verdade antiga.

— Não vai parar agora — ele murmurou, como se aquilo fosse uma decisão dele… mas também minha.

Eu engoli em seco.

— Eu não estou parando — eu respondi, e a minha voz já não tentava ser corajosa. Só era verdadeira.

Os beijos foram mudando de lugar: do rosto ao pescoço, do pescoço ao arrepio. Sempre com urgência crescente, como se o que a gente vinha segurando por tempo demais estivesse finalmente ganhando um endereço.

Eu percebi que ele me guiava sem pressa, mas sem dúvida. Era como se cada movimento dele estivesse dizendo: “eu entendi você”. E quando ele me puxou para mais perto, eu senti o calor dele preencher todo o espaço que antes era só medo.

No único momento em que ele parou, eu quase senti falta do toque—e eu odeiei essa fraqueza. Mas ele parou só para me encarar de novo. Como se quisesse que eu visse o que ele sentia antes de continuar. E eu vi. Eu não desviei. Meus olhos disseram o que minha boca ainda tentava esconder.

— Você tem medo? — ele perguntou, e a pergunta veio baixa, direta, perigosa.

Meu peito apertou por um segundo, como se a verdade fosse pesada demais para carregar sozinha.

— Eu sempre tive — eu admiti. — Tenho medo do que acontece depois. Depois que a gente entende que não dá para voltar.

Ele sorriu, e naquele sorriso não tinha ternura fácil. Tinha verdade.

— Então não volta.

Eu senti a puxada dele de novo—não agressiva, mas inevitável. E o beijo recomeçou com uma força que apagou quase tudo. Era como uma tempestade que finalmente encontrou caminho.

Quando a noite ficou mais lenta e as palavras perderam sentido, eu só conseguia manter uma certeza: quando eu me soltava, era para prender mais. Era para ficar. Era para não deixar virar lembrança.

Antes de ele encostar a testa na minha pela última vez, ele disse como um juramento:

— Eu não quero sua lembrança. Eu quero você inteira. Agora.

Eu fechei os olhos por um segundo, só o tempo suficiente para deixar o medo desaparecer. Quando eu abri, eu já não estava pedindo permissão. Eu estava escolhendo.

— Então vem — eu falei.

E quando a gente finalmente se encontrou do jeito que o coração reconhece, eu entendi que o depois não era ameaça. Era promessa.

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